
Um argumento recorrente contra a Reforma da Previdência de 2019 é que ela teria piorado o desemprego no país. A lógica por trás dessa ideia é simples de entender.
Se as pessoas precisam trabalhar mais anos antes de se aposentar, elas ocupariam vagas por mais tempo. Isso, em teoria, reduziria as oportunidades disponíveis para trabalhadores mais jovens entrarem no mercado.
Mas essa é uma hipótese teórica. Vamos ver o que os dados oficiais realmente mostram.
O que a reforma mudou, rapidamente
A Emenda Constitucional 103/2019, conhecida como Reforma da Previdência, entrou em vigor em 13 de novembro de 2019. Entre outras mudanças, ela estabeleceu idade mínima para aposentadoria (62 anos para mulheres, 65 para homens) e alterou a fórmula de cálculo dos benefícios. O texto completo está disponível no site da Câmara dos Deputados.
O que aconteceu com o desemprego depois de novembro de 2019
Os dados abaixo vêm da PNAD Contínua, a pesquisa oficial de emprego do IBGE, com série histórica iniciada em 2012.
- Fim de 2019 (mês da reforma): taxa de desocupação em torno de 11%
- 2020 e 2021 (pandemia de Covid-19): a taxa disparou para uma média de 13,7% em 2020 e 14,0% em 2021, chegando a um recorde de 14,9% no trimestre até maio de 2021
- 2022: início de uma queda consistente, terminando o ano em 7,9%
- 2023: média anual de 7,8%
- 2024: média anual de 6,6%, menor da série histórica até aquele momento
- 2025: média anual de 5,6%, novo recorde de menor taxa desde o início da série, com o trimestre de dezembro registrando 5,1%
- Início de 2026: taxa em 5,8% no trimestre até fevereiro
O que esses números indicam
O desemprego não subiu de forma sustentada depois da reforma. Ele teve um pico expressivo em 2020 e 2021, mas esse período coincide exatamente com a pandemia de Covid-19, que paralisou setores inteiros da economia mundial, não apenas a brasileira.
A partir de 2022, a taxa de desemprego brasileira entrou em uma trajetória de queda contínua, chegando ao menor patamar da série histórica em 2025 (5,6%), quatro anos depois da reforma entrar em vigor.
Uma ressalva importante sobre causa e efeito
É preciso ter cuidado aqui. Assim como a reforma não pode ser apontada como culpada pelo desemprego alto de 2020-2021 (isso foi a pandemia), também não é correto dizer, apenas com esses dados, que a reforma foi a causa da posterior queda do desemprego a níveis recordes.
Outros fatores relevantes influenciaram esse período: a recuperação econômica pós-pandemia, o aumento do salário mínimo, e o crescimento da formalização do mercado de trabalho, entre outros. Isolar o efeito específico de uma única política, como a reforma previdenciária, exigiria um estudo econométrico dedicado, que não foi encontrado como consenso disponível publicamente até a publicação deste artigo.
Fatos Relevantes
- A Reforma da Previdência (EC 103/2019) entrou em vigor em novembro de 2019, com o desemprego em torno de 11%.
- O desemprego disparou para até 14,9% em 2020-2021, período que coincide com a pandemia de Covid-19, não com a reforma.
- A partir de 2022, o desemprego caiu de forma contínua, atingindo o menor nível da série histórica do IBGE em 2025 (5,6%).
- Não há dados que comprovem uma relação direta de causa e efeito entre a reforma e a queda posterior do desemprego, nem entre a reforma e o pico registrado durante a pandemia.
Fontes consultadas para este artigo
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua)
- Emenda Constitucional nº 103/2019, publicada no site da Câmara dos Deputados
- Agência Brasil (EBC) e Agência de Notícias do IBGE, divulgações oficiais de resultados trimestrais e anuais da PNAD Contínua