Linha do Tempo

Linha do tempo: os atos de 8 de janeiro de 2023 e seus desdobramentos


Poucos eventos recentes da história brasileira geram tanta discussão quanto o 8 de janeiro de 2023. Por isso mesmo, vale reconstruir os fatos com calma, na ordem em que aconteceram, sem adjetivos, sem narrativa pronta, só a sequência do que está documentado e confirmado por instituições oficiais.

O que levou até aqui (outubro a dezembro de 2022)

Em outubro de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu a eleição presidencial contra o então presidente Jair Bolsonaro (PL), por margem apertada, em segundo turno.

Nas semanas seguintes, começaram a se formar acampamentos em frente a quartéis do Exército em várias cidades do país, incluindo um grande acampamento em Brasília, montado numa área conhecida como Setor Militar Urbano. Segundo o relatório da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigou os atos, esse acampamento passou de cerca de 300 pessoas em 5 de janeiro de 2023 para 5.500 pessoas em 7 de janeiro, véspera dos atos.

O dia 8 de janeiro de 2023

Foi um domingo. Por volta das 14h, um grupo de milhares de manifestantes que estava concentrado em frente ao Quartel-General do Exército se deslocou até a Esplanada dos Ministérios, escoltado pela Polícia Militar do Distrito Federal.

Às 15h, na Praça dos Três Poderes, parte da multidão subiu as rampas de acesso e invadiu simultaneamente os três prédios que representam os Três Poderes da República: o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto (sede do Executivo) e o Supremo Tribunal Federal.

Os invasores depredaram obras de arte, quebraram vidros e móveis, destruíram computadores e documentos, e chegaram a roubar objetos dos prédios. As perdas materiais foram estimadas, na época, em mais de R$ 20 milhões.

Cerca de uma hora depois do início da invasão, forças de segurança, incluindo tropas de cavalaria e a Polícia Federal, começaram a retomar os prédios. Em aproximadamente duas horas, os manifestantes foram totalmente retirados do Planalto e do STF.

As primeiras horas depois

Ainda no mesmo dia, o presidente Lula (que estava viajando) decretou intervenção federal na área de Segurança Pública do Distrito Federal, válida até 31 de janeiro, e nomeou um interventor federal responsável por essa pasta.

Nos dias seguintes, duas medidas de destaque:

  • O ministro Alexandre de Moraes (STF) determinou o afastamento do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e a prisão de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro que, no dia dos atos, ocupava o cargo de secretário de Segurança Pública do DF.
  • O então ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Gonçalves Dias, pediu demissão do cargo depois que imagens dele dentro do Palácio do Planalto durante a invasão vieram a público.

As investigações começam

Nos meses seguintes, duas frentes de investigação avançaram em paralelo:

1. A Polícia Federal e o STF passaram a investigar quem participou diretamente dos atos, tanto quem invadiu os prédios quanto quem organizou e financiou a mobilização.

2. O Congresso Nacional instalou, em 25 de abril de 2023, uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, formada por deputados e senadores) para investigar o financiamento dos atos e apurar responsabilidades políticas.

Os julgamentos das pessoas que participaram dos atos

Ao longo de 2023, 2024 e 2025, milhares de pessoas identificadas nos atos de invasão foram processadas individualmente pelo STF, em julgamentos que costumam ser chamados de “julgamento em bloco” (vários casos semelhantes analisados em sequência).

Segundo balanço divulgado pelo próprio STF em abril de 2026, 1.402 pessoas foram condenadas pelos atos de 8 de janeiro até aquele momento, divididas assim:

  • 431 receberam penas de prisão
  • 419 receberam penas alternativas (sem prisão)
  • 552 firmaram Acordos de Não Persecução Penal (ANPPs), um tipo de acordo disponível para crimes mais leves, em que o acusado cumpre condições (como prestação de serviços) em troca de não virar réu formalmente

A maioria dos condenados respondeu por crimes como tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.

A investigação da “trama golpista”: um processo à parte

Paralelamente aos julgamentos dos participantes dos atos, corria uma investigação diferente e mais ampla: a de que a invasão de 8 de janeiro teria sido a etapa final de um plano articulado antes mesmo da eleição, com o objetivo de impedir a posse de Lula e manter Bolsonaro no poder.

Essa investigação dividiu os investigados em “núcleos”. O mais importante, o Núcleo 1, ou “Núcleo Crucial”, reunia o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais sete aliados próximos, incluindo generais e ex-ministros.

Linha do tempo desse processo especificamente:

  • 25 de março de 2025: a Primeira Turma do STF aceitou, por unanimidade, a denúncia da Procuradoria-Geral da República contra os oito integrantes do Núcleo 1, tornando-os réus.
  • Ao longo de 2025: o STF julgou também os réus dos Núcleos 2, 3, 4 e 5 (esse último, ligado a uma pessoa que mora nos Estados Unidos, ainda sem data de julgamento). Ao todo, 31 pessoas foram julgadas nessas ações, resultando em 29 condenações e 2 absolvições.
  • Setembro de 2025: a Primeira Turma do STF concluiu o julgamento do Núcleo 1 e condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão, a pena mais alta entre os condenados. A menor pena, de 1 ano e 11 meses, coube a um tenente-coronel. O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, tenente-coronel Mauro Cid, que fechou acordo de colaboração premiada com a Justiça, recebeu pena reduzida de 2 anos.
  • 14 de novembro de 2025: o STF rejeitou, por unanimidade, os recursos (embargos de declaração) apresentados pelas defesas de Bolsonaro e outros seis réus do Núcleo 1.
  • 22 de novembro de 2025: Bolsonaro, que já cumpria prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica desde agosto daquele ano, foi preso preventivamente depois de tentar romper o equipamento em casa, durante a madrugada.
  • 25 de novembro de 2025: Moraes determinou o trânsito em julgado (quando não cabe mais nenhum recurso) da ação penal contra Bolsonaro e os demais condenados do Núcleo 1, dando início ao cumprimento definitivo das penas, em regime fechado.

2026: pedidos por saúde, redução de penas e o debate sobre anistia

Já em regime fechado, a defesa de Bolsonaro apresentou diversos pedidos de prisão domiciliar por razões de saúde ao longo do início de 2026, a maioria negada pelo STF. Em março de 2026, um pedido foi concedido por 90 dias, depois de o ex-presidente ser internado com um quadro de pneumonia.

Paralelamente, corria no Congresso uma discussão legislativa importante: o PL da Dosimetria (PL 2.162/2023), projeto que permite reduzir as penas de quem foi condenado pelos crimes de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, os mesmos que atingiram boa parte dos condenados do 8 de janeiro.

  • O presidente Lula vetou integralmente o projeto em janeiro de 2026, argumentando que ele seria inconstitucional.
  • Em 30 de abril de 2026, o Congresso Nacional derrubou o veto (318 deputados e 49 senadores votaram pela derrubada), com a ressalva de que alguns trechos ficaram de fora, para evitar conflito com outra lei aprovada meses antes (a chamada Lei Antifacção).
  • Em 8 de maio de 2026, o texto foi promulgado como Lei 15.402/2026.

Importante: a redução de pena não é automática, cada condenado precisa pedir individualmente ao STF que recalcule sua sentença com base na nova lei.

Sobre a anistia especificamente: desde 2024, existe uma discussão recorrente no Congresso sobre aprovar uma anistia (perdão coletivo, diferente da redução de pena) para os condenados pelo 8 de janeiro, incluindo o próprio Bolsonaro. Diferente do indulto (que é uma decisão do presidente da República), a anistia só pode ser aprovada por lei do Congresso. Até o momento desta publicação, essa proposta não foi aprovada, e parlamentares favoráveis à prisão de Bolsonaro afirmam que o apoio à ideia perdeu força depois da prisão preventiva de novembro de 2025.

Consequências políticas em curso

Bolsonaro está inelegível até 2030, por uma decisão anterior e separada do TSE (Tribunal Superior Eleitoral, de 2023, relacionada a reuniões em que ele questionou a segurança do sistema eleitoral perante embaixadores estrangeiros, um processo diferente do julgamento da trama golpista). Mesmo preso e inelegível, ele seguiu politicamente relevante, tendo declarado apoio à candidatura do filho, o senador Flávio Bolsonaro, para a eleição presidencial de 2026.


Esse é um tema que ainda está em andamento, novos pedidos, recursos e discussões legislativas continuam surgindo. Sempre que houver atualização relevante, o compromisso deste espaço continua o mesmo: trazer os fatos, sem escolher lado.