Fato ou Narrativa

Como nascem e se espalham as fake news políticas


Você provavelmente já recebeu alguma mensagem política duvidosa em um grupo de família no WhatsApp. Esse não é um acaso isolado.

Vamos entender o mecanismo por trás disso, sem apontar para nenhum lado político específico. O fenômeno acontece dos dois lados do espectro.

Por que conteúdo político falso se espalha tão rápido

Três fatores técnicos e psicológicos ajudam a explicar isso.

1. Algoritmos priorizam engajamento, não veracidade. Redes sociais são desenhadas para mostrar primeiro o que gera mais reações (curtidas, comentários, compartilhamentos). Conteúdo sensacionalista ou emocional tende a gerar mais engajamento do que uma notícia factual e equilibrada, então o próprio sistema acaba privilegiando esse tipo de conteúdo.

2. Aplicativos fechados dificultam a fiscalização. No WhatsApp, as mensagens são criptografadas e privadas. Diferente de um post público no Twitter/X, ninguém de fora do grupo consegue ver, sinalizar ou corrigir uma informação falsa circulando ali.

3. Viés de confirmação. As pessoas tendem a acreditar e compartilhar com mais facilidade conteúdos que já confirmam o que elas gostariam que fosse verdade, sem checar a fonte. Isso vale igualmente para quem já é de esquerda ou de direita.

O que os dados mostram

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que analisou 1,7 milhão de mensagens em 120 grupos de WhatsApp ao longo de um ano, encontrou que correntes com desinformação política atingiam mais usuários do que correntes com desinformação sobre outros assuntos. O estudo também identificou aumento das mensagens falsas sobre política perto de eleições.

Dados mais recentes, do Observatório Lupa, mostram uma mudança importante no comportamento da desinformação entre 2024 e 2025:

  • As fake news sobre políticos triplicaram nesse período, um crescimento de 308%
  • O uso de inteligência artificial para criar deepfakes (vídeos ou imagens falsificados de uma pessoa real) saltou de 39 publicações em 2024 para 159 em 2025
  • Quase metade (cerca de 50%) do conteúdo político gerado por IA identificado tinha viés ideológico claro
  • A participação do WhatsApp como principal canal de disseminação caiu de quase 90% em 2024 para 46% em 2025, mas isso não significa redução da desinformação, e sim migração para outras redes sociais

Um caso concreto: as eleições de 2022

Um estudo acadêmico, em parceria com o Projeto Comprova (iniciativa de checagem jornalística colaborativa), identificou 110 fake news com mais de 100 milhões de engajamentos entre 1º de outubro e 17 de dezembro de 2022, boa parte delas com acusações de fraude eleitoral e ataques ao TSE e ao STF.

Esse período é o mesmo que antecedeu os atos de 8 de janeiro de 2023, que já cobrimos aqui no blog.

O que o Congresso tentou (e ainda tenta) regular

Desde 2020, tramita no Congresso o PL 2630/2020, conhecido por seus apoiadores como “PL das Fake News” e por seus críticos como “PL da Censura”. A proposta criaria obrigações de transparência e moderação para grandes plataformas digitais.

Até o momento desta publicação, o projeto ainda não foi aprovado. Ele enfrenta resistência tanto de big techs (que argumentam impacto econômico e risco à liberdade de expressão) quanto de parte da sociedade civil, que considera o texto atual ainda insuficiente para combater a desinformação de forma eficaz.

Como se proteger na prática

Algumas ferramentas gratuitas ajudam a verificar informações antes de compartilhar:

  • Agências de checagem: Agência Lupa, Aos Fatos e Projeto Comprova publicam verificações diárias sobre boatos em circulação
  • Busca reversa de imagens: ferramentas como o Google Imagens permitem verificar se uma foto já circulou em outro contexto, antes de ser usada numa notícia falsa
  • Desconfiar de conteúdo muito emocional: mensagens que pedem urgência (“compartilhe antes que apaguem”) ou geram reação emocional forte merecem checagem extra antes de repassar

Fatos Relevantes

  • Fake news políticas se espalham mais rápido que outros tipos de desinformação, segundo estudo da UFMG com dados do WhatsApp.
  • Fake news sobre políticos triplicaram entre 2024 e 2025, segundo o Observatório Lupa, com forte crescimento no uso de deepfakes gerados por IA.
  • O WhatsApp perdeu participação como principal canal de desinformação, mas isso reflete migração para outras redes, não redução do problema.
  • O PL 2630/2020, que regularia transparência de plataformas digitais contra desinformação, segue sem aprovação final desde 2020.

Fontes consultadas para este artigo

  • Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estudo sobre fake news políticas em grupos de WhatsApp
  • Observatório Lupa, relatório de 2025 sobre desinformação política e uso de IA
  • Projeto Comprova, levantamento sobre fake news no período eleitoral de 2022
  • Tramitação do PL 2630/2020, Senado Federal e Câmara dos Deputados